terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sacrifício



Se você olhar para aquele penhasco, aquele mais alto e mais verde, todas as manhãs, você será capaz de ver um ser alado, com as asas estendidas, deixando-se ser levadas pelo vento. Um anjo, você diz. Talvez. A resposta depende do seu ponto de vista.
É uma mulher. Alguns a conhecem por Sacerdotisa, outros, por Diplomata da Paz. De qualquer forma, é sempre a mesma. Ela tem vários protegidos... Mas existem apenas dois pelos quais ela daria a vida. Esses dois têm o mesmo nome e o mesmo oficio – matar. Por que ela os protege? Ela argumenta toda vez que são os guerreiros que mais precisam de proteção. Só talvez.
Um deles a abandonou, pediu para ela ir embora. E em uma daquelas manhãs ela estava pensando nele. Havia voado até o lugar preferido dos dois – uma cachoeira, grama verdejante, árvores frondosas e apenas o barulho dos pássaros e da água.  Mas ele não estava lá. Já fazia um tempo que ele nunca estava lá, nem mostrava interesse em ir.
A sacerdotisa era recrutada por vários guerreiros, de todas as classes, todos os dias. Era seu dever e também seu prazer ajudar. Seria por isso que seu mercenário se afastou? Mas ela estava tentando. Tentando veentemente ter tempo para ele e protegê-lo, mas ultimamente ele só havia fugido ou ficado calado. E apesar de tudo, ela continuava o amando.
Ela ficou de pé e se jogou do penhasco. A poucos metros do chão, ela abriu as asas. Ela não poderia morrer enquanto os dois estivessem vivos.
Seu coração guiou-a até ele. Nem mesmo ela soube como. Ela apenas parou no ar e o avistou, lutando ousadamente contra um exercito. Seus inimigos atiraram lanças contra ele, e mais rápido do que qualquer um deles pudesse ver, ela criou uma barreira protetora com suas asas e seu corpo. A chuva de flechas acertou-a nas costas e feriu suas asas. Ela caiu de joelhos no chão.
- Lute! – ela gritou, quando percebeu ele hesitar – Lute ou nós dois morreremos!
Por incrível que pareça, seu amado mercenário enfrentou aquele exercito inteiro sem nenhum arranhão. Ela estava protegendo-o, mas mais fortemente do que protegia os outros, sua energia minada até o fim. Ela caiu, exausta, e as cores envoltórias da sua proteção sumiram do corpo dele.
- Você está bem? – ele perguntou, ajoelhando-se e erguendo a cabeça dela.
- Sim, estou bem. – ela tocou o rosto dele. – Eu consegui proteger você...
- Não, não está bem. Por que fez isso por um mercenário ladrão como eu?
- Por que eu vivo para defendê-lo, não importa o que seja... Sempre há um coração aqui dentro. – ela tocou o peito dele e sorriu.
- Você é uma sacerdotisa, cure-se. – ele ordenou.
- Não tenho forças...
- Você nunca tem. Nunca consegue proteger a si mesma.
- Meu dever é proteger, e se necessário, dar a vida por você. É por isso que fui criada.
- Você não pode morrer!
- Não enquanto vocês estiverem vivos.
Ele pegou-a no colo, manchando as mãos e o peito com o sangue dela. Ela ia viver, ia viver enquanto pudesse ouvir os batimentos cardíacos daquele coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário