Se você olhar para aquele penhasco,
aquele mais alto e mais verde, todas as manhãs, você será capaz de ver um ser
alado, com as asas estendidas, deixando-se ser levadas pelo vento. Um anjo,
você diz. Talvez. A resposta depende do seu ponto de vista.
É uma mulher. Alguns a conhecem por
Sacerdotisa, outros, por Diplomata da Paz. De qualquer forma, é sempre a mesma.
Ela tem vários protegidos... Mas existem apenas dois pelos quais ela daria a
vida. Esses dois têm o mesmo nome e o mesmo oficio – matar. Por que ela os
protege? Ela argumenta toda vez que são os guerreiros que mais precisam de
proteção. Só talvez.
Um deles a abandonou, pediu para ela ir
embora. E em uma daquelas manhãs ela estava pensando nele. Havia voado até o
lugar preferido dos dois – uma cachoeira, grama verdejante, árvores frondosas e
apenas o barulho dos pássaros e da água.
Mas ele não estava lá. Já fazia um tempo que ele nunca estava lá, nem
mostrava interesse em ir.
A sacerdotisa era recrutada por vários
guerreiros, de todas as classes, todos os dias. Era seu dever e também seu
prazer ajudar. Seria por isso que seu mercenário se afastou? Mas ela estava
tentando. Tentando veentemente ter tempo para ele e protegê-lo, mas ultimamente
ele só havia fugido ou ficado calado. E apesar de tudo, ela continuava o
amando.
Ela ficou de pé e se jogou do penhasco.
A poucos metros do chão, ela abriu as asas. Ela não poderia morrer enquanto os
dois estivessem vivos.
Seu coração guiou-a até ele. Nem mesmo
ela soube como. Ela apenas parou no ar e o avistou, lutando ousadamente contra
um exercito. Seus inimigos atiraram lanças contra ele, e mais rápido do que
qualquer um deles pudesse ver, ela criou uma barreira protetora com suas asas e
seu corpo. A chuva de flechas acertou-a nas costas e feriu suas asas. Ela caiu
de joelhos no chão.
- Lute! – ela gritou, quando percebeu
ele hesitar – Lute ou nós dois morreremos!
Por incrível que pareça, seu amado
mercenário enfrentou aquele exercito inteiro sem nenhum arranhão. Ela estava
protegendo-o, mas mais fortemente do que protegia os outros, sua energia minada
até o fim. Ela caiu, exausta, e as cores envoltórias da sua proteção sumiram do
corpo dele.
- Você está bem? – ele perguntou,
ajoelhando-se e erguendo a cabeça dela.
- Sim, estou bem. – ela tocou o rosto
dele. – Eu consegui proteger você...
- Não, não está bem. Por que fez isso
por um mercenário ladrão como eu?
- Por que eu vivo para defendê-lo, não
importa o que seja... Sempre há um coração aqui dentro. – ela tocou o peito
dele e sorriu.
- Você é uma sacerdotisa, cure-se. – ele
ordenou.
- Não tenho forças...
- Você nunca tem. Nunca consegue
proteger a si mesma.
- Meu dever é proteger, e se necessário,
dar a vida por você. É por isso que fui criada.
- Você não pode morrer!
- Não enquanto vocês estiverem vivos.
Ele pegou-a no colo, manchando as mãos e
o peito com o sangue dela. Ela ia viver, ia viver enquanto pudesse ouvir os
batimentos cardíacos daquele coração.

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